quarta-feira, 28 de junho de 2017

“As histórias que habitam a estatística”




Por Yeda Crusius *

O Dia Mundial do Refugiado foi instituído em 20 de junho de 2000 pela ONU, uma data certa para homenagear milhões de pessoas que são obrigadas a fugir de guerras civis, perseguições em decorrência de suas posições religiosas, opiniões políticas, etnia e raça. Não é raro que artistas mundialmente conhecidos gravem pedidos de ajuda, promovam shows em benefício desse ou daquele grupo. O mundo se mobiliza, olha para os campos de refugiados, faz doações e agradece por estar em casa, com os seus, em segurança.

Por um dia. Depois vamos todos viver a vida, porque os horrores que os deslocados e refugiados por conflitos enfrentam em sua caminhada são de tal maneira chocantes que é como se não pudéssemos conviver com eles por mais de 24 horas. Quem ainda se lembra do pequeno Aylan Kurdi, que morreu como se dormisse à beira do Mediterrâneo no dia 02 de setembro de 2015, ou das 423 crianças que afogaram na mesma travessia no ano seguinte?

Em 20 de junho de 2017 a ACNUR – Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, avisou que uma a cada 113 pessoas no mundo é hoje solicitante de refúgio, deslocado interno ou refugiado. E essa equação dá um número recorde de 65,3 milhões de pessoas. A estatística pode ser global, mas as histórias são individuais. Gente que é forçada a deixar para trás suas casas, culturas, famílias; que fecha portas para nunca mais voltar e entra de cabeça em contato com realidades completamente diversas. Mente aberta a golpe de maça.

Um choque cultural que mostra que ainda precisamos crescer muito como indivíduos para estar à altura do desafio que essas grandes migrações representam. E elas não vão parar de chegar, cada uma trazendo na bagagem a dor de seus integrantes. Aqui, as misérias provocadas pelo Estado Islâmico, como no caso de Lamia Aji Bashar, nascida no Curdistão iraquiano, da minoria yazidi, que passou 20 meses como escrava do EI e durante esse tempo teve seis donos. Ali, as dores e o preconceito que sofre o refugiado ainda na barriga da mãe, Albert, gerado durante o genocídio em Ruanda, em 1994, que nasceu na Tanzânia para ser criado em um orfanato, com o irmão mais novo, até que ela pudesse recuperá-los. Acolá, em Roraima, é a fuga da repressão sanguinária de Maduro que obriga a advogada Carol Formaniak a deletar 4 páginas de seu currículo para poder encontrar emprego, por ser qualificada demais.

É importante ouvir, colocar nomes nos números fornecidos pelo ACNUR, individualizar suas dores, olhar para eles e realmente ver. Porque, da maneira como entendo, há apenas duas maneiras de lidar com os que nos procuram, atrás da segurança de nossas fronteiras. Com xenofobia e medo, a exemplo do que está acontecendo com frequência na Europa, ou acolhendo com dignidade, devolvendo a essas pessoas a cidadania que perderam ao fugir de suas terras.

Estou no segundo grupo. Sei que ainda engatinhamos na acolhida a deslocados por conflitos, mas já temos por aqui exemplos a seguir, como o da sudanesa Eiman Haru, ela mesma uma refugiada, que sendo especializada em assistência humanitária, ajuda outras mulheres na mesma situação a recomeçar a vida no DF. Se mais e mais de nós procurarmos seguir o exemplo dela, pode ser que em um futuro não muito distante, o Dia Mundial do Refugiado deixe de ser o único momento em que pensamos neles.

(*) Yeda Crusius é economista e deputada federal pelo PSDB/RS em seu quarto mandato. Já ocupou os cargos de Ministra do Planejamento e Governadora do RS.


OBS: Texto e imagem extraídos de http://www.psdb.org.br/acompanhe/artigos/as-historias-que-habitam-a-estatistica-por-yeda-crusius/

sexta-feira, 16 de junho de 2017

É preciso que o PSDB deixe o governo Temer o quanto antes!




Na data de ontem (15/06), o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso surpreendeu a opinião pública e seus colegas de partido ao defender a realização de eleições diretas por iniciativa do próprio Michel Temer, posição esta que vai contra a decisão dos peessedebistas em permanecerem no governo. Num trecho da nota encaminhada ao jornal O GLOBO (clique AQUI para ler), o tucano lembrou que, anteriormente, havia classificado como "golpe" a ideia da oposição de antecipar eleições, mas, desta vez, considerou que falta "legitimidade" ao presidente e que a medida seria um "gesto de grandeza" para atender a um pedido popular:

"A ordem vigente é legal e constitucional mas não havendo aceitação generalizada de sua validade, ou há um gesto de grandeza por parte de quem legalmente detém o poder pedindo antecipação de eleições gerais, ou o poder se erode de tal forma que as ruas pedirão a ruptura da regra vigente exigindo antecipação do voto."

Ainda no começo da semana, durante a reunião da comissão executiva do PSDB em Brasília, o presidente interino do PSDB, senador Tasso Jereissati (CE), anunciou que o partido irá continuar na base de apoio de Temer. Segundo ele, "nós não somos defensores do governo, mas estamos em nome da estabilidade e das reformas que são necessárias. Nossa maior preocupação são os desempregados que estão aí e não deixar que essa crise econômica venha a piorar"

Assim que a crise política brasileira havia se agravado, tão logo veio à tona a delação premiada dos irmãos Batista, FHC defendeu a renúncia de Temer e que o sucessor viesse a ser escolhido por eleição indireta como determina a Constituição. Porém, o novo posicionamento do ex-presidente poderá ser decisivo para definir o futuro da crise em razão de seu peso político e ideológico dentro da agremiação partidária, dando mais força para uma dissidência na bancada, a qual é liderada pelo deputado Daniel Coelho (PE).

Confesso que eu, na condição de um simples afiliado que jamais disputou eleições, já estava até pensando em sair do PSDB seguindo os passos do jurista Miguel Reale Jr. Contudo, ao saber que Fernando Henrique passou a defender a renúncia de Temer e à realização de eleições diretas, acho que vou ficar no partido para fortalecer a dissidência juntando-me a ele e à voz deputado estadual Luiz Paulo Correia da Rocha na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, o qual foi decisivo para que a Executiva do PSDB nesta unidade da federação defendesse o impeachment do presidente.

Mais do que nunca, desejo que o partido reavalie a sua posição de apoiar o governo. Afinal, não dá mais para tolerar a corrupção e continuar caminhando sobre a "pinguela", a qual está prestes a se arrebentar. Logo, os tucanos precisam entregar os seus ministérios e agir com coragem para "atravessar o rio a nado", como bem colocou FHC na sua nota.


OBS: Imagem acima extraída de uma notícia do portal do PSDB com créditos autorais atribuídos a Renato Araújo, conforme consta em http://www.psdb.org.br/acompanhe/noticias/fhc-pede-que-partidos-pensem-no-brasil-em-meio-crise/

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Depressão: que porra é essa?


Há momentos, momentos terríveis na depressão, no seu estado mais profundo, mais dilacerador, que precisamos acreditar contra nossa própria vontade, mesmo não acreditando, ou mesmo não podendo acreditar, no sentido de não conseguir acreditar, que vamos conseguir sair do abismo da depressão, nem que tenhamos que subir escalando com nossas próprias mãos, ainda que estas venham "sangrar".

E antes que alguém me diga: "Márcio, você é um dos muitos que tem por ai, que só sabe sobre depressão através dos inúmeros livros que leu na faculdade", respondo: não, infelizmente eu já tive a depressão em seu estado mais desumano; mais sofrível; mais avassalador; mais devastador; mais profundo - não me orgulho disso, mas também, não me envergonho: é algo do humano com o qual tenho aprendido a lidar.

E como fiz para sair dela? Acreditando contra todas as possibilidades; contra todas as circunstancias; contra todas as forças desse demônio devastador que é a depressão, que suga suas forças, suas energias, sua potência, seu intelecto, sua fé, sua esperança. Que te joga no mais profundo abismo, e ainda por cima, te enterra vivo, jogando terra sobre você, tentando te fechar pra nunca mais você sair de lá... ao menos sair VIVO.

Por isso que escrevi o que escrevi e como escrevi, relatando toda minha experiência com esse demônio que é a depressão em um livro: para que eu mesmo acreditasse, forçasse-me a acreditar, que iria sair do abismo... que iria não: que precisava sair do abismo!! Que tinha que sair do abismo!! Pela minha família! Pelos meus amigos! Pelos meus (dois) filhos!! Principalmente: por mim!!!

E que deixasse registrado se algum dia a escuridão da depressão voltar a tomar conta da minha alma, eu tenha a mim mesmo como testemunha de que, é possível lutar e sair vivo dessa experiência terrível.

Esqueça formulas prontas, receitas mágicas, conselhos salvadores: é preciso atravessar "o vale da sombra e da morte". Não tem segredos. Não há alternativa. Não há como fugir. Não há como escapar. A depressão mais profunda - chamada na psiquiatria de "Depressão Maior", justamente pela sua intensidade, duração e prejuízos (os piores) que traz pra vida psicossocial e afetiva - não é um abismo que tem como evitar, pois este abismo se localiza DENTRO de você.

Aonde você vai, carrega consigo esse abismo, esse buraco na alma, um pedaço que arrancaram de você e que agora você caminha com esse buraco faltante na alma pelos caminhos da vida. E tudo que você faz, tudo que você busca, tudo que você tenta, simplesmente não enche esse buraco.

Você caminha entre os vivos, como se já estivesse morto; como se não mais pertencesse a realidade do mundo dos vivos; você não mais compartilha das mesmas preocupações, objetivos, atividades e alegrias que os vivos; e o pior é justamente essa sensação de estranhamento do mundo, de si mesmo com relação às pessoas a sua volta e até com você mesmo.

Você as vê nas suas mais variáveis rotinas; em seus mais variáveis projetos; realizando diversas atividades; e simplesmente não entende: "Por que o mundo não sente o que eu sinto? Por que o mundo não enxerga o que eu vejo? Por que o mundo ta rindo, se divertindo, se alegrando? Por que as pessoas estão correndo de um lado para outro? Por que as pessoas insistem em continuar fazendo as coisas que fazem? Por que as pessoas continuam vivas? Por que MEU DEUS ELAS INSISTEM EM VIVER?”.

E sabe o que você recebe como resposta? O silêncio; o vazio; a falta de sentido; o absurdo que é o mundo, que é a vida, que são os relacionamentos, as atividades, as rotinas, a própria existência.

Mas, a próxima pergunta a ser feita é a mais importante que precisa ser respondida, e talvez por isso, a mais difícil: "será que o mundo todo enlouqueceu ou fui eu que realmente estou vendo o mundo do seu lado avesso?".


Por isso você precisa querer crer... não! Você primeiro e antes de tudo tem que QUERER QUERER crer. Não escrevi errado, foi isso mesmo que você leu!

QUERER QUERER é o primeiro e decisivo passo, donde todas as demais coisas (tratamento psicológico, tratamento psiquiátrico, apoio incondicional da família e dos amigos) dependem. Se você não QUERER QUERER acreditar, não adianta o papa sair do vaticano pra vir te socorrer, Jesus Cristo descer dos céus pra te ajudar: você não sairá do abismo que a depressão instalou em você - ou será que o abismo, na sua forma de desamparo, de angústia, de absurdidade que é o mundo, sempre esteve, e nesse caso está, dentro de cada um de nós? A diferença é que a pessoa com depressão toma real consciência da profundidade desse abismo?

Ou será (Novamente) que a depressão não é uma resposta da consciência que se percebe mergulhada na falta gritante de sentido, de qual a alma é esmagada com o peso da solidão, do desamparo, do deserto que a alma tem que atravessar?


Enfim, se a péssima notícia é que a depressão está em você, a boa noticia (se é que é boa) é que os recursos para superar essa depressão também estão em você: em dar o primeiro e mais importante passo: de querer querer acreditar e do QUERER QUERER ser, permitindo ser, ajudado.

Termino esse meu texto (longo sei, mas necessário) dizendo que pelo amor de Deus, você que não tem e que nunca teve depressão, mas que tem um parente na família, um amigo, ou até filho, esposa ou esposo, mãe, pai, irmão, até mesmo um vizinho, ou colega de trabalho, ou conhecido, não vá "compartilhar" esse meu texto com a pessoa, dizendo "tá vendo só fulano, você precisa sair dessa... para com isso, chega de depressão, levanta e sai dessa", não cometa essa injustiça, essa loucura, pois a pessoa que se encontra com depressão, não pediu para estar deprimida, não buscou a depressão, não disse algo parecido com "vem depressão, vem ne mim, que eu to afim de ficar deprimida", pois ninguém em sã consciência deseja, busca ou quer ficar na fossa da lama que é a depressão.

Depressão é algo que "acontece" e que pode "acontecer" com qualquer um, independe de raça, cor, crédulo, religião, status social e econômico. Por isso disse que é a pessoa que está com depressão é que precisa por ela, através dela, num pacto com ela mesma, QUERER QUERER acreditar que sim, que é possível, senão "curar" o abismo dentro dela, ao menos conviver com ele, dia após dia, numa luta inglória e sangrenta, numa batalha travada pela própria sobrevivência, de resistência frente ao rolo esmagador da depressão.

Escrito por mim, Marcio Alves, hoje psicólogo, escritor do livro “45 Dias de Pânico Total!”, pai de Alexandre e Nicolas, que ressurgiu das cinzas do inferno da Depressão e do Transtorno de Pânico, pra contar sua própria história, sem florear ou dourar a pílula do Demônio da Depressão.
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