domingo, 31 de dezembro de 2017

ANO NOVO, VIDA NOVA



Por Frei Betto*

Estamos à porta de 2018. E o que fizemos de nós mesmos em 2017?

Há em nós abissal distância entre o que somos e queremos ser. Um apetite de Absoluto e a consciência aguda de nossa finitude. Olhamos para trás: a infância que resta na memória com sabor de paraíso perdido; a adolescência tecida em sonhos e utopias; os propósitos altruístas.

Hoje, o salário apertado num país tão caro; os filhos, sem projeto, apegados à casa e ao consumismo; os apetrechos eletrônicos que perenizam a criança que ainda resta em nós.

Em volta, a violência da paisagem urbana e nossa dificuldade de conectar efeitos e causas. Como se os infratores fossem cogumelos espontâneos, e não frutos do darwinismo econômico que segrega a maioria pobre e favorece a minoria abastada. O mesmo executivo que teme assalto e brada contra bandidos, abastece o crime consumindo drogas.

Ano novo. Vida nova? Depende. Podemos continuar a nos empanturrar de carnes e doces, encharcados em bebidas alcoólicas, como se a alegria saísse do forno e a felicidade viesse engarrafada. Ou a opção de um momento de silêncio, um gesto litúrgico, uma oração, a efusão de espíritos em abraços afetuosos.

No fundo da garganta, um travo. Vontade de remar contra a corrente e, enquanto tantos celebram a pós-modernidade, pedir colo a Deus e resgatar boas coisas: uma oração em família, a leitura espiritual, a solidão orante, o gesto solidário que ameniza a dor de um enfermo.

Reencontrar, no ano que se inicia, a própria humanidade. Despir-nos do lobo voraz que, na arena competitiva do mercado, nos faz estranhos a nós mesmos. Por que acelerar tanto, se temos que parar no sinal vermelho? Por que tanta dependência do celular e dificuldade de dialogar olho no olho?

Ano novo de eleições. Olhemos o país. As obras que beneficiam empreiteiras trazem proveito à maioria da população? Melhoram o transporte público, o serviço de saúde, a rede educacional? Nosso bairro tem um bom sistema sanitário, as ruas são limpas, existem áreas de lazer? Participamos do debate sobre a reforma da Previdência? Os políticos em quem votamos tiveram desempenho satisfatório? Prestaram contas do mandato?

Em política, tolerância é cumplicidade com maracutaias. Voto é delegação e, na verdadeira democracia, governa o povo por meio de seus representantes e de mobilizações diretas junto ao poder público. Quanto mais cidadania, mais democracia.

Ano de nova qualidade de vida. De menos ansiedade e mais profundidade. Aceitar a proposta de Jesus a Nicodemos: nascer de novo. Mergulhar em si, abrir espaço à presença do Inefável. Braços e corações abertos também ao semelhante. Recriar-se e apropriar-se da realidade circundante, livre da pasteurização que nos massifica na mediocridade bovina de quem rumina hábitos mesquinhos, como se a vida fosse uma janela da qual contemplamos, noite após noite, a realidade desfilar nos ilusórios devaneios de uma telenovela.

Feliz homem novo. Feliz mulher nova.


*Frei Betto é escritor e assessor de movimentos sociais

OBS: Créditos autorais da imagem atribuídos à Rose Brasil/Agência Brasil, sendo o texto extraído do blogue do teólogo Leonardo Boff, conforme consta em https://leonardoboff.wordpress.com/2017/12/30/frei-betto-ano-novo-vida-nova/

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Nudez e vergonha do corpo



Por Arthur Virmond de Lacerda Neto

e-mail: arthurlacerda@onda.com.br


Por que o brasileiro encobre certas partes do seu corpo nas praias? Décadas atrás, havia traje de banho: as pessoas banhavam-se no mar vestidas, com trajes próprios, que, nos homens e nas mulheres, encobriam-lhes o peito e a metade superior das coxas. Depois, os homens descobriram o tórax e as mulheres adotaram o “maillot”.  A seguir, o calção de banho masculino reduziu-se a as mulheres adotaram o biquini, em que se lhes ocultam as mamas e o púbis. Surgiram, a seguir, a sunga, o “fio dental” (que seria melhor designado por fio de nádegas) e a porção superior do biquíni reduziu-se drasticamente. Hoje, é mínima a parcela do corpo humano que a moral convencional obriga a encobrir, nas praias.
As mamas e a genitália feminina são, ainda, ocultas por indumentos mínimos, se é que se pode chamá-los de roupas. Na verdade, não o são; não são trajes de banho. São a expressão da mentalidade do brasileiro, segundo a qual é moralmente necessário, por decência, por pudor, por “uma questão de ética” e de moralidade, que se velem, minimamente que seja, as mamas e a genitália (as nádegas acham-se totalmente expostas, há décadas). Da mesma forma, o homem deve encobrir as nádegas, o pênis e o escroto.
Qual a racionalidade da ocultação destas partes? Nenhuma. Assim como, dantes, nenhuma imoralidade havia na exposição do peito dos homens e na do abdômen das mulheres, nenhuma indecência há em as mulheres andarem de mamas ao vento e os homens de pênis solto.
O corpo é natural (ou não?); ele não é imoral (ou é?).  Nenhuma das suas partes deve ser motivo de vergonha (ou deve?); não há regiões do corpo mais decentes e outras menos (ou há?). “Naturalia non turpia”, diziam os antigos: o natural não envergonha, não deve envergonhar, não há porque envergonhar.
Qual é a justificativa racional, defensável, coerente, de se obrigar moralmente ao velamento de certas partes do corpo? Nenhuma. Por que o pênis deve ser ocultado? Por que as mamas devem ser encobertas? Por nenhum motivo; apenas e exclusivamente por causa da rotina mental, do costume, da imitação do uso, da repetição, do modelo mental a que as pessoas são condicionadas, a que aderem e que se perpetua por inércia.
Ninguém pense que a exposição da genitália é excitante. Quem nunca viu, observa, na primeira vez, por curiosidade; na segunda, ainda observa, ainda por curiosidade; na terceira, já viu e, mais do mesmo, a repetição enfara e desaparece a curiosidade e, com ela, o olhar. Ademais, pode excitar mais o encobrimento do que a exposição: imagina-se o que se não vê; o que se vê pode decepcionar…
E se a exposição da totalidade do corpo fosse excitante? Que mal haveria em que o fosse? Há mal na libido, na sexualidade, na excitação, na atração física, no interesse? Acaso nada disto existe? Acaso devemos fingir que nada disto existe? E acaso a excitação limita-se às partes encobertas? Só há excitação mercê da observação do que se oculta ou o restante corpo também atrai? E porventura, nas praias, as pessoas sentem-se todas e sempre atraídas e  excitadas com a observação dos corpos quase nus?
A experiência demonstra que a visão do nu completo não é excitante após a segunda ou  a terceira vezes:  o que já se viu torna-se sensaborão, perde a graça. Os brasileiros pensam em contrário, acreditam que o nudismo excita por quase total falta de experiência de observação da nudez total.
Há, no Brasil, raras praias de nudismo, isoladas, quase como se fossem campos de concentração ou lazaretos, cujos freqüentadores devem ser segregados. No Brasil, apesar do calor (Rio de Janeiro, quarenta graus!), ai da mulher que andar de mamas ao vento no areal da praia! Toda a gente olhá-la-a, em regra por curiosidade (nunca viram cousa tal) e haverá policial que intervenha para coibir o atentado ao pudor, duplo índice do retrógrado da mentalidade do brasileiro, para quem o descobrimento das mamas é moralmente condenado e atentatório aos bons costumes. Para mim (brasileiro) é ridículo, é primário que os bons costumes envolvam, ainda, o encobrimento de certas partes do corpo; é idiota que se censurem as mulheres por exporem as suas mamas; é sem sentido que os homens devam ocultar o seu órgão de emissão da urina.
Que diferença há entre tapar-se o bico da mama das mulheres e não o fazer? Uma tira estreita de pano amarrada nas costas; outra tira, mais estreita, sobre os pentelhos,  resguardam a moral e a decência? A sua ausência é atentatória do pudor e dos bons costumes? Pense com seriedade, reflita por um minuto, fora da rotina mental a que está condicionado: que diferença faz? Por que tais trapinhos seriam sinônimos de pudor? Por que a sua ausência é despudorada? O mesmo em relação à genitália masculina. Em que há indecência, imoralidade, atentado ao pudor, ofensa na exposição do que é natural?
Por que nas praias de nudismo a decência é diferente, a pudicícia prescinde de tapa-sexos, o corpo exposto é decente? Em que difere a moralidade do nudista da do vestido? Em que o primeiro encara o corpo com  naturalidade e o segundo associa-o à sexualidade. Erotiza-0 não  quem o expõe, senão quem o oculta: quem o expõe, fá-lo desinibidamente, sem lhe atribuir conotação sensual; atribui-lhe sensualidade quem oculta certas partes, a que atribui papel lúbrico. O nudista não pensa só em sexo; o ocultador, sim. Para o nudista, o corpo é apenas o corpo; para o ocultador, certas das suas partes são motivo de vergonha, a sexualidade é motivo de vergonha.
No areal das praias do Rio de Janeiro, se uma mulher retirar o  tapa-sexo superior, haverá quem chame a polícia, para reprimi-la por ato de despudor, como ocorreu com uma estrangeira, acostumada, no seu país, à exposição das mamas e que se perplexou com a atitude do brasileiro, que admite a nudez integral no carnaval, masculina e feminina, que suporta temperaturas de quarenta graus e para quem os bons costumes dependem de se encobrir o bico do seio.
Na Alemanha, pratica-se o nudismo integral há cerca de 120 anos. A nudez total integra os costumes alemães. Anda-se nu, em pelo, em público, nas áreas verdes de toda a Alemanha, sem que tal seja motivo de escândalo nem de atentado à moral e aos bons costumes. Para o alemão, o corpo não é motivo de vergonha nem a nudez é sexual: é natural. Na França, na Espanha, em Portugal (em parte), na Itália (em parte), na Alemanha, na Inglaterra,  na Grécia, na Croácia, na Dinamarca, na Finlândia, na Noruega, na Suécia, na Califórnia e alhures, as mulheres apresentam-se, nas praias, de mamas ao vento e ninguém se escandaliza com isto nem se põe a mirá-las como objetos sexuais, exceto os brasileiros, bisonhos em tais costumes de liberdade.
Na Europa pratica-se o nudismo doméstico: todos nus, pai, mãe, filhos; 42% dos franceses o fazem. Na Espanha, há 230 praias de nudismo. Na Alemanha, há mais de uma centena de campos e praias de nudismo; há dezenas deles na Inglaterra e na França. Nos E.U.A.,  passa de 200 o número de centros de bem-estar (“resorts”) nudistas.
Na Universidade de Berkeley (Califórnia), é tradicional a corrida dos nus, em que estudantes correm pelos corredores dela, nus, rapazes e moças, alacremente. Em Roskilde (Dinamarca), realiza-se, desde 1971 festival musical, em que há uma corrida de nus; também em Aahrus, na Suécia, em festival popular, correm os nus. Nas Filipinas, a fraternidade Alpha Pi Omega, presente na Universidade de Manilha, promove, anualmente, a corrida e passeio dos seus integrantes, nus. Em Londres, os estudantes das altas escolas promovem o banho no Tâmisa, nus. Na Califórnia, há décadas há escolas nudistas: todos nus, alunos e professores.
Nestes países, quem quiser, é livre de andar nu na rua, no mercado, na praça, no metrô. E as pessoas fazem-no. Reconhece-se: 1- a ausência de obrigatoriedade de vestir-se; 2- a liberdade de nudez, como soberania sobre o próprio corpo.
Liberdade de nudez, de andar nu, de não se vestir; direito de não encobrir o próprio corpo. É liberdade que as populações européias reconhecem e praticam e que o brasileiro ainda sequer concebe.
“Mas o que é que uma criança vai pensar disto?”. É exclamação (com forma de interrogação e intuito de censura) típica de brasileiros, que perguntam o mesmo em relação às manifestações homoafetivas. Perante dois homens de mãos dadas, o brasileiro convencional exclama: “O que vai se dizer para uma criança, disto?” (diga-lhe que há homens que amam homens). Perante a possibilidade da nudez total na praia ou na cidade, o brasileiro convencional preocupar-se-á (sincera e também hipocritamente) com a formação das crianças e manifestará escândalo (digo hipocritamente porque a maioria dos pais jovens negligencia a formação dos seus filhos, papel que atribui à escola, como se o professor devesse fazer de pai dos filhos alheios. Outros são hipócritas porque usam a saúde moral das crianças como pretexto com que dissimulam o seu moralismo).
Se uma criança, na praia, na cidade, no campo de nudismo, vir o pênis, o escroto, os pentenhos, as nádegas, a vagina, as mamas, terá visto o corpo como ele é  e terá aprendido que tudo isto integra os seres humanos (inclusivamente ele próprio) e que  nada disto merece, razoável nem justificadamente, ocultação como critério de moralidade.
“Se eu ficar nu, toda a gente vai me olhar”. Muita gente olhá-lo-a por curiosidade, por não estar acostumada com a nudez. A nudez individual, isolada, é atrativa; deixará de sê-lo se, a pouco e pouco, as pessoas exercerem a sua liberdade e tornar-se, gradualmente, costumeira a exposição, a começar pelas praias.
Na praias francesas, portuguesas (em parte), italianas (em parte), espanholas, gregas, alemãs, francesas, croatas, e mais na Austria, na Suécia, na Dinamarca, na Finlândia, na Noruega, na Inglaterra, na Califórnia, na cidade de Nova Iorque e em outras,  as mulheres andam de mamas ao vento e ninguém lhes liga. Liga-lhes o brasileiro que nunca viu tal: observa-as, por curiosidade, uma vez; outra vez, ainda com curiosidade. Da terceira por diante, já viu. Na quarta, é mais do mesmo. Assim é na Europa há décadas: o europeu abandonou o preconceito de que o tapa-sexo é indispensável à moralidade, aos bons costumes, à salvaguarda da família e dos mais valores da civilização ocidental, de deus e da evitação do pecado.
Neste momento, a mentalidade dos brasileiros, quanto à nudez, é demasiadamente conservadora, convencional, rotineira, mesmo arcaica. Já foi pior, quando o cristianismo, religião repressora por excelência da sexualidade, preponderava com o seu etosEm décadas pretéritas inexistia o banho de mar: que imoralidade uma mulher expor o tornozelo. O tornozelo! Poderá piorar, na medida em que se propagarem as formas evangélicas de cristianismo, atualmente em avanço no Brasil. Manter-se-á estacionária enquanto não se despertar a atenção do público em relação a tal matéria: hostilizam a nudez as gerações supra-50, cinquentagenários, sexagenários, septuagenários, octogenários, gente formada em décadas passadas, em modelos mentais de acentuada austeridade e repressão de costumes. Gente velha, de mentalidade arcaica. Também a hostilizam os religiosos de todas as idades, para quem toda nudez deve ser negada. Gente de mente fechada, submetida aos mandamentos bíblicos.
O preconceito contra a nudez, a vergonha do corpo, o automatismo do seu encobrimento constituem, propriamente, heranças católicas: padrões de pensamento, de comportamento, de reação emocional, em suma,  mentalidades e costumes que se incutiu no brasileiro mercê da pregação insistente, reiterada, efetuada pelo clero católico e, agora, pelo evangélico, com aplicação de dizeres da Bíblia.
Como sempre, a Bíblia justifica o arcaísmo de comportamentos e a negação das liberdades. Daí, a existência, em décadas pretéritas, do padrão católico de vestimenta feminina e o padrão atual de vestimenta evangélica, em Curitiba, pelo menos, em que as crentes (normalmente da classe C) usam cabelos compridos, presos na nuca, a que não aplicam shampoos nem condicionadores (tampouco se pintam); vestem camisa de mangas compridas ou blusa; saia de brim azul ou semelhante, até a altura dos joelhos; calçam sandálias. Vista uma mulher trajada por esta forma, como forma de identificação de pertencimento à sua classe social, identifica-se nela mulher evangélica.
Também os jesuítas concorreram para a formação da mentalidade anti-nudez. Nos seus manuais, no século XVIII ensinava-se, nos colégios, a trocar de camisa sem se olhar para a própria genitália e de forma a que nenhuma parte do corpo se expusesse, mesmo quando o aluno estivesse sozinho: a nudez torna-se vergonhosa mesmo perante o próprio indivíduo, independentemente de olhares alheios.
Em 1920, José Tomaz de Almeida, na revista Ave Maria, publicada em São Paulo, escrevia: “escravizar-se uma senhora digna ou uma donzela, à moda indecorsa, apresentando-se de pernas expostas, tão curtas usam as saias, de braços nus, com colo e costas à mostra, provocando maus sentimentos, excitando pecados, é contra a moral, é tudo que pode haver de anti-cristão, de condenável, de verdadeiro paganismo!”
            Adiante: “O corpo da mulher deve andar velado, pois ele é o templo vivo do santuário da divindade. O dernier cri do nu, como a desfaçates da impudica e leviana, avilta e deshonra a virtude nas suas exibições”.
            “O pudor, a modéstia e a timidez, são o encanto da mulher.”
            “Encompridae as saias curtas, que exibem as pernas; levantae os decotes que expõem vosso corpo; baixai as mangas que descobrem os braços; sede discretas no trajar para não vos confundir com as heroínas do vício”.
            Por sua vez, o padre Ascânio da Cunha Brandão, na mesma revista Ave Maria, em 1936, verberava os costumes de liberdade dos alemães:
Aí está por exemplo a Alemanha, mandando buscar nas ruínas da Grécia pagã o fogo sagrado para a suas Olimpíadas e prestando à carne e aos deuses pagãos um culto que excede as raias da estupidez e do ridículo.
            Os deuses! A Grécia! As Olimpíadas! O nudismo! O atletismo!”
Adiante: “Não é condenável, por exemplo, este espetáculo de vergonha e despudor de nossas praias de banho? Este nudismo escandaloso está reclamando uma medida enérgica. É incrível!”.
            Em 1944, o mesmo padre, em outra colaboração com a revista, asseverava:  “Sim, a Igreja, ou melhor, a moral católica reprova como ocasião de pecado e de escândalo, o nudismo exagerado nas praias e o banho em comum na promiscuidade dos sexos”. Pretendia ele que as mulheres usassem maiô (peça de vestuário que lhes velava o tronco, das mamas à virilha) e que os homens e as mulheres freqüentassem o areal da praia separadamente, à maneira do regime de segregação da Africa do Sul, em que se isolavam os brancos dos negros.
O etos católico de velamento do corpo perpetuou-se, como dado da formação dos costumes brasileiros; o que há de mais imbecil, mais retrógrado, mais tacanho, mais obtuso, mais burro da igreja católica inveterou-se nos costumes do brasileiro. As pessoas já não se lembram de pregações deste tipo, porém praticam os comportamentos correspondentes porque se lhes criou uma verdade e uma ética, que considero verdadeira porcaria mental e moral.
O exercício da nudez e o uso da vestimenta compreendem formas de liberdade. Na Alemanha e em outros países europeus, há a liberdade de vestir-se e a de não o fazer. Veste-se quem o quer fazer e anda nu quem entende fazê-lo: isto é liberdade.  Não significa que os alemães exibam-se preferencial ou corriqueiramente desnudos, porém a desnudez não os escandaliza. Não é que prevalece no Brasil.
A moralidade liga-se aos valores, ao senso de verdade, de solidariedade, de probidade, à disciplina pessoal, à generosidade, à paciência, à compreensão, à empatia, à perseverança, ao estudo, ao cultivo de si próprio, à aquisição da cultura, aos bons modos, à colaboração. A moralidade não se prende à repressão da sexualidade (até certo ponto) nem ao velamento de certas partes do corpo, tampouco à obediência à textos da Bíblia nem a padrões de comportamento baldos de sentido.
Há moralidade e há moralismo. Aquela envolve a liberdade pessoal e de costumes; este compreende, também, padrões de comportamento liberticidas e irracionais. É o caso, a segunda, do brasileiro, em relação à nudez. Oxalá evoluam eles do moralismo para a moralidade; da censura que praticam por rotina para a liberdade de que aprendam a usufruir.
Na Inglaterra, Alexandre Sutherland Neill (1883-1973) criou a escola Summerhill, em que os próprios alunos criavam as regras porque nela se regiam (auto-regulação). Laico, o seu ensino era destituído de inculcação religiosa (pelo que os seus  alunos desenvolviam-se fora do conceito de pecado e do sentimento de culpa que ele origina) e fora da repressão da masturbação e da nudez, pelo que os seus alunos adquiriam a saúde psicológica de que tão freqüentemente eram privadas as crianças e os jovens educados com censura da sexualidade, em geral, e com obrigação de ocultarem o seu corpo.
A nudez, observava Neill, jamais deveria ser desencorajada. O bebê deveria ver seus pais despidos, desde o princípio”. Em Summerhill,  prevalecia “atitude absolutamente natural” (Liberdade sem medo, p. 213. São Paulo, Ibrasa, 1977), acerca da nudez, em resultado do que os seus alunos não desenvolviam curiosidade mórbida por corpos (femininos nem masculinos), não se tornavam mixoscopistas, não se envergonhavam diante do desnudamento alheio, não  se vexavam por serem vistos nus por outrem.
Um casal, pais de filhos crianças, adotou, com hábito, o desnudamento doméstico, ao que A. Neill observou à mãe: “A nudez no lar  é excelente e natural. Seus  filhos, mais tarde, evitarão muito o sexo doentio.  É improvável que um deles se torne um `voyeur´, pois que terão visto tudo quanto há para ver” (Liberdade sem excesso, p. 64. São Paulo, Ibrasa, 1976).
É hora de os brasileiros perceberem a falta de sentido da mentalidade anti-corpo; a ausência de inerência entre nudez e sexualidade, entre sexualidade e culpa, entre nudez e vergonha do corpo, entre velamento das mamas e do pênis e moralidade. É altura de os brasileiros descobrirem o direito à nudez natural, de manifestarem-se a respeito, por palavras e gestos.
Na prática, julgo que: 1) deve-se revogar o artigo 233 do Código Penal (ato obsceno); 2) autorizar-se a nudez total em todas as praias do Brasil. Quando menos, o monoquini; 3) autorizar-se que as mulheres possam expor as mamas em público, conforme, aliás, decisão do Tribunal de Justiça de SP, de 2015; 4) criar mais praias de nudismo; criar campos de nudismo.
Se gostou, divulgue esta idéia.

OBS: Texto extraído parcialmente do blogue do autor, com apenas uma das fotos, conforme se lê em https://arthurlacerda.wordpress.com/2016/01/01/nudez-e-vergonha-do-corpo-3/

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

O Natal e a nossa cultura




Apesar do Natal ser uma das datas mais importantes do nosso calendário (hoje em dia mais por motivos culturais/comerciais do que religiosos), há muitas curiosidades acerca desta época que nem todas as pessoas sabem.

Pois bem. Uma delas foi que o aniversariante Jesus de Nazaré não nasceu comprovadamente em dezembro, inexistindo na Bíblia qualquer referência direta ao dia, mês ou ano da sua vinda ao mundo. Nem mesmo nas literaturas apócrifas! Logo, trata-se de uma comemoração simbólica cuja instituição pela Igreja se deu no século IV da era comum para substituir as comemorações pagãs no solstício de inverno (natalis invicti Solis), que era a celebração do nascimento anual do deus Sol Invicto no Hemisfério Norte.

No entanto, quase a totalidade dos cristãos comemora o Natal e até mesmo muitos que não são religiosos seguem a tradição mais por razões culturais. E eu, sinceramente, não vejo problemas em aceitar tal comemoração sobre Jesus visto que possui um rico significado ético e pedagógico.

Mas o que dizermos do Papai Noel? O bom velhinho deveria ser abolido dos nossos natais?

Poucos conhecem isto, mas figura do Papai Noel é uma homenagem ao bispo católico Nicolau de Mira, o qual presenteava crianças pobres também no século IV. Claro que ele não tinha nada a ver com aquele homem rechonchudo, alegre e de barba branca que veste um casaco vermelho com gola e punho de manga brancos, calças vermelhas de bainha branca, cinto e botas de couro preto. Porém, ficou conhecido por sua caridade e afinidade com as crianças. E, devido à sua imensa generosidade e aos milagres que lhe foram atribuídos, foi canonizado pela Igreja Católica, tornando-se um símbolo ligado diretamente ao nascimento do Menino Jesus cuja data comemorativa ocorre anualmente dia 6 de dezembro por ocasião de sua morte no ano 350.

Assim, em que pese alguns cristãos dizerem que a tradição de Papai Noel desvia o público infantil das origens religiosas e do propósito verdadeiro do Natal, entendo que não. Talvez o único problema seja que a imagem do bom velhinho acabou se associando com a nefasta comercialização do Natal e se distanciou da verdadeira história do São Nicolau. Daí considero mais proveitoso os pais promoverem esse resgate histórico quanto ao verdadeiro Papai Noel, escolhendo presentes mais significativos, ao invés de abolirem de maneira radical a crendice dentre os seus filhos pequenos.

Quanto aos demais costumes natalinos, tipo a árvore com as bolas vermelhas (substitutas das maças usadas como enfeites), as músicas, o presépio e o peru assado, somente mudaria o cardápio dos brasileiros e optaria pelas canções traduzidas para o nosso idioma. Pois, a meu ver, o presépio continua sendo algo bem instrutivo para as crianças entenderem melhor o Natal, mas não acho que as pessoas se alimentem corretamente nesta época do ano aqui no Brasil que costuma ser bem quente com temperaturas capazes de ultrapassar os 40ºC. Daí penso que, se muitas famílias ainda desejam manter a tradição de comer o peru, conforme foi iniciado em 1621, no estado norte-americano de Massachusetts, durante o dia de Ação de Graças, então que procurem um acompanhamento mais tropical.

Fico por aqui. Encerro esse meu texto desejando a todos um excelente Natal e, se não postar nada mais aqui até 31/12 do corrente, deixo já um feliz 2018 agradecendo com sinceridades tanto as visitas quanto os comentários recebidos.


OBS: Texto originalmente publicado em meu blogue pessoal, sendo a ilustração acima extraída de http://catolicosemitaperuna.blogspot.com.br/2011/12/o-menino-jesus-e-o-papai-noel-dom.html

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Pedras no Bolso




                                                                                                                                           Elidia Rosa

No filme As Horas, que narra a vida da escritora Virgínia Woolf, a cena que me marcou, entre tantas outras cenas desse filme espetacular, foi a derradeira, e que também inicia o filme.

Nele Virgínia, desesperada diante da impossibilidade cada vez maior de exercer sua criatividade, sob forma da arte de escrever, e de todo caos em torno a partir de seu próprio caos interno, decide colocar algumas pedras nos bolsos e lentamente adentrar as águas do Rio Ouse, na Inglaterra, submergindo para sempre a vida naquele mergulho.

Eu nunca gostei muito de água corrente que passasse da linha da cintura; pensando bem mesmo em piscinas, procurava não me afastar muito das bordas pelo medo de, não sabendo nadar,  afundar num engolfamento imaginário.

Águas profundas, quem as conhece pela cor...quem sabe o que carregamos na turbidez, quando colocamos pouco a pouco mais uma pedra, mais uma pitada de auto-destruição, ou mesmo como Woolf enchendo rapidamente os bolsos com avidez de quem corre para a libertação almejada, pesos aliviando pesos.

Os Outros sabem um pouco, nem mesmo nós sabemos muito, e o que temos à custa de muita análise e introspecção, parecem fragmentos de um grande vitral. Feio às vezes, para quem vê de perto, e de beleza digna de contemplação que não distinguimos ao jogar pedras no mosaico da nossa existência.
Essa semana mais alguém que se aproximou demais do mosaico, do Rio turvo, do impensável na existência, e sucumbiu. Um pastor.

- Mas não era religioso? Tinha fé? Durkheim, Freud, Jung, Beck, Rogers, ajudam a pensar esse composê, mas faltam vidros coloridos e pequenos, aliás, arrogância nossa achar que a vida (e a morte) simplesmente se explica com retalhos das coisas que se intuem.


Quando um adolescente gaúcho usando grelhas transmitiu seu suicídio pela internet, seu analista Mário Corso, articulista e escritor conhecido, admitiu sua impotência com que "o que escapa" para além do divã. Pensei que há momentos que só quem experimenta As Horas conhece a dor e a delícia de colocar as pedras e submergir, ou sentar na margem do rio e experimentar deixá-las escorregar do bolso.
E retornar.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Minha versão de dentro do acidente do ônibus que deixou sete vítimas; três em estado grave



Quase três horas da madrugada. Tudo em silêncio e na mais perfeita calmaria e paz. Dormia um sono profundo. Profundo não, porque quem é que pode dormir bem numa poltrona que é desconfortável como as que são de um ônibus, ainda mais de que é convencional?

DE REPENTE: o impacto e o barulho da batida do ônibus no caminhão de boi... estilhaços de vidro voando no meu rosto (isso, porque estava sentado na poltrona 35, do meio para o final do ônibus)... uma gritaria e muito choro, misturados com vozes de crianças, jovens, adultos e idosos... e ainda por cima, a luz do ônibus que permaneceu apagada por eternos segundos: meu Deus o que está acontecendo?

Gritos de “para motorista, para o ônibus!” e de “quebra a janela gente!” e de “me ajuda eu quero sair daqui!”, junto com “gente, parece que tem gente morta aqui na frente”, meu Deus, o que será tudo isso afinal?

Quando a luz do ônibus finalmente é acessa; quando o ônibus finalmente para; continuo sem entender o que houve... porque todos estão de pé? Que confusão é esta?
E o ônibus, para ajudar, veio lotado. Das 45 (acho que é isso) vagas, 44 estavam sendo usados, por crianças, jovens, adultos e idosos.

O que não entendo meu Deus do céu é porque a galera do inicio do ônibus ao invés de descer pela porta da frente, estão todos vindo para o meio, na minha direção: o que houve com a porta? Será que o estilhaço foi da porta e não das janelas?

Um grupo de homens estão tentando abrir as janelas de emergência, e eu aqui, paralisado, sentido uma mistura de terror e pânico, com uma sensação de confusão e desorientação... mas também, como poderia ser diferente, se estava dormindo e sou acordado da pior maneira possível?

Gritos de uma mulher pedindo, melhor dizendo: pedindo não, implorando que “pelo amor de Deus me ajudem! Ai que dor! Socorro!” me deixam mais ainda em estado de profundo choque.

Finalmente a janela de emergência é aberta... todos querem descer de uma vez, mas não é possível, por causa dos bancos que atrapalham  descer. Pedidos de mães desesperadas, para que tirem suas crianças. No meio de tudo isso, alguém diz “pera ai gente, que o ônibus parou e não tem mais nada que ameace a gente” ao que outro retruca “precisamos sair logo, porque o ônibus não está com o pisca alerta ligado, vai que um caminhão ou carro vem e bate atrás do ônibus?”, foi o suficiente para começar a correria e gritaria de novo para descer.

Quanto a mim, fiquei tão em choque, que demorei para sair. E quando saí do ônibus, foi porque o que estava na minha frente era mais desesperador do que meu próprio choque: pessoas presas com uma lasca de madeira enorme do caminhão, nas pernas, gritando desesperadas e gemendo de dor.

Tentar ajudar a socorrer as vitimas? Mesmo se tivesse como, isso estava naquele momento de estado de choque, para além dos meus limites: tenho vergonha, mas não pude nem tentar ajudar do lado de dentro as vitimas. Alias: essa cena foi até mais forte do que minha própria paralisação e estupor, fazendo com que, conseguisse enfim, me mexer e sair do ônibus.

Lá fora, todos tentando entender o que aconteceu. Todos em estado de choque. A diferença entre um e outro é que enquanto uns ficavam paralisados em choque (eu), outros usavam esse choque, essa adrenalina para agir.

E agir como? Tentando tirar a lasca pesada e grande de madeira cravada na frente do ônibus e nas pernas das pessoas.
Foi ai que chegaram as primeiras das três viaturas de polícia, e duas ou três ambulâncias, mas, que, nada ainda do corpo de bombeiros.

Muita luz, muita sirene, muito corre corre: o desespero ainda não acabou. Tem gente presa nas ferragens.

E para aumentar ainda mais a tensão e subir o nível de estresse, um bate-boca: de um lado (a maioria) não querendo esperar o corpo de bombeiros chegar, propunham agir o mais rápido possível; do outro, alguém diz para a turma que é preciso esperar justamente o corpo de bombeiros, pois eles são os técnicos responsáveis e mais capacitados para retirarem a lasca enorme de madeira, chegando ao ponto de argumentar, que se alguém mexesse e desse algo errado, seria responsabilizado pelo erro, ao que alguém já no seu limite responde com a ideia de ninguém mexer, mas se alguém por isso morrer, tal pessoa que levantou o argumento anterior, para que ninguém mexesse, seria responsabilizado.

E eu, lá, parado, flutuando no meu estupor e no meu estado de choque, pensando como seria mil vezes mais terrível, se tivesse como meus dois filhos (um de 4 anos, e outro, de 10 anos), quando alguém no meio dos passageiros me reconheceu: um rapaz que trabalha na Promotoria de Mucurici-ES, aonde, por causa do meu trabalho no CREAS, que só trabalha com direitos violados e por isso, diretamente com promotor e juiz, me reconheceu e começou a falar alto “gente, ele é psicólogo, ele pode ajudar”.

Pera ai: como assim eu sou psicólogo e posso ajudar? Eu é que quero saber quem é que vai me ajudar e me socorrer desse estado de choque... imagina então eu nesse momento conseguir ajudar alguém.

Mas quando estava terminando de pensar esse pensamento, alguém chega pra mim e pergunta se sou mesmo psicólogo. Minha vontade era de negar, de cavar um buraco na terra e me esconder, mas naquele momento, começou a agir em mim, outras forças, que não apenas a paralisia, eram: o dever, a consciência e a ética de ajudar, minimamente é verdade, mas que nem por isso deixaria de ser algum tipo de ajuda, de algo pequeno para aquele momento, que eu poderia ofertar a quem estava, assim como eu, muito angustiado e meio atônito.

Só ai e que comecei a usar a adrenalina que tinha se espelhado no meu corpo, por causa do choque emocional do acidente, para ir até as pessoas que queriam e sentiam necessidade de um atendimento emergencial psicológico.

E que bom foi para algumas pessoas e para mim: ao ajudar elas, estava, sem ainda, naquele momento, me dar conta, de que estava me ajudando a sair um pouco de mim mesmo, dos meus sentimentos, sensações e pensamentos, para ajudar quem precisava muito de mim.

Depois de umas duas horas, tudo estava resolvido (a ambulância levou os mais gravemente feridos a um hospital perto do acidente; a polícia prendeu em fragrante o motorista completamente alcoolizado que deixou o caminhão de carregar boi, entre o encostamento e a pista, parado; e nós embarcávamos em outro ônibus (executivo) disponibilizado pela Águia Branca)... quer dizer: nem tudo, já que as marcas do acidente, se em algumas foram mais graves fisicamente, em outras (como eu) ficaram como profundas marcas psicológicas.

Marcio Alves
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