sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O Sábio, o Menino e a Caverna




Um ancião e um menino caminhavam por uma montanha, quando se depararam com a abertura de um túnel escuro, e de imediato resolveram explorá-lo. Tatearam pelos labirintos e corredores secretos escavados na rocha. Rastejaram por fendas quase intransponíveis. O menino pensava que estava perdido nas raízes da montanha.
De repente, um feixe de luz invade a caverna inundando-a de uma claridade intensa que lhes ofuscou os olhos. Então, apareceram diante deles toscas pinturas de variadas formas e cores, imprimidas nas paredes de argila. O menino extasiado foi logo gritando:
— Isso só pode ser obra de um grande artista! — disse, à medida que passava os dedos sobre os desenhos.
Mas o sábio que não enxergava através dos olhos do menino, procurava insistentemente ver o que lá não estava, levado por algum entusiasmo evolucionário ou científico.
O bom senso do menino, naquele momento, restringia-se, unicamente, à apreensão dos fatos.
O homem sábio, por sua vez, ligava tudo o que via ao que tinha lido sobre o homem primitivo, aquele bárbaro que batia em suas mulheres. Plantado, ali ficou por alguns minutos, olhando para coisas que eram demasiadas grandes para ver, e demasiadas simples para entender. Sua mente já deduzia tudo em detalhes. Já via significados primários nos rabiscos pintados na rocha, todos ligados, segundo ele, à superstição e aos sacrifícios humanos de um governo tribal.
O que o menino dissera — “isto é obra de um artista! ” — suscitou no mestre um questionamento: “Como àquilo poderia ser obra de um artista, se o que ele via ali na caverna, na realidade, eram apenas sombras do REAL?”
Quando saíam juntos da caverna, o sábio ancião resolveu contar para o menino a história da “Caverna de Platão”, a qual, ele ouviu com atenção redobrada. Após o desfecho da história contada pelo mestre, o menino fez essa inusitada constatação:
— Acho que deve ser muito prazeroso viver numa caverna!
O velho estufando o peito, resolve dar ao menino, uma pequena amostra de seus sólidos conhecimentos:
— Não, meu filho, você está equivocado! — Os primitivos da caverna eram homens bárbaros, sem entendimento algum. Aquelas pinturas que você viu são falsas, são “ilusões”, pois os selvagens pintores não conheciam o “real”, viam somente “sombras” do “real”. O homem da historia que lhe contei, conseguiu sair da caverna, para conhecer a “verdade” lá fora. Os que ficaram, pediram ao fugitivo que trouxesse a sua “verdade” para dentro da caverna, mas ele se vendo incapaz de descrever tudo o que vira na linguagem dos seus, compreendeu que a única solução era todos deixarem aquele buraco hostil para entender o mundo de lá de fora. Os encavernados não aceitaram a proposta de sair do seu habitat. E foi assim que o corajoso fugitivo ficou, solitário, a desfrutar a sua descoberta.
O sábio, enquanto falava, viu lágrimas saírem dos olhos do pobre menino, e, mediante essa súbita reação infantil, assim racionalizou:
— Já sei! Você está chorando com pena dos que ficaram presos na caverna!
— Não, não foi isso que me fez chorar. Estou com pena daquele que saiu da caverna. É que fiquei triste, pensando na imensa saudade que ele iria sentir, por não poder mais voltar ao seu ninho — respondeu o menino, enxugando os olhos com a manga da camisa.
O deslumbramento do menino diante das pinturas rupestres intuiu no velho a reflexão de que a “verdade” simples dos primitivos poderia até ficar remota, mas nunca iria deixar de ser verdadeira. Não é que o ancião, agora, tinha a impressão de estar mais perto da caverna do que outrora? Isto, porque sentia algo dentro e ao mesmo tempo separado dele, algo como uma emoção guardada em segredo, a dizer: “adeus”.
— É meu filho, meditando bem, em uma afirmação tão simples, você fez o que quase ninguém tem a coragem moral de ponderar — concluiu o mestre — passando carinhosamente a mão sobre a cabeça do menino.
No caminho de volta para casa, o sábio senhor dizia de si para si: “Aprendi mais uma! Num dos meus próximos sermões irei falar sobre essa servil fraqueza sentimental, essa melancolia exagerada, denominada SAUDADE ou NOSTALGIA, que faz a gente viver sem estar lá”.
Foi numa reunião da recém-formada Sociedade dos Pensadores Exilados da Caverna (SOPECA), que o velho e sábio homem teve um “insight”: Nostalgia da Caverna” — disse enfático — este, sim, será o tema de minha preleção de encerramento do ano letivo.

Por Levi B. Santos
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